O CINEMA AOS MEUS OLHOS

Pertenço, feliz e infelizmente – verdadeiro paradoxo - a uma geração que teve e julgo que continua a ter – eu sim - no cinema, uma das suas grandes paixões e, por que não dizê-lo, adiantadamente, até para ir dissipando o “infelizmente” mais acima escrito, hoje quase completa desilusão.

Caminhando passo a passo. Celebrou-se há dias o dia mundial do cinema. Então o meu bichinho-cinema também acordou. A falta de televisão na altura há-de ter sido factor decisivo para o contágio, pelo menos cá entre nós, do cinema, da curta à longa-metragem.

À semelhança da literatura, em que a caminhada ia da banda desenhada à fotonovela, daí para o “Corin Tellado”, “Seis Balas”, “Vampiro”, Agatha Chirstie  até aos mais hodiernos “best sellers”, no cinema a progressão se fazia ao mesmo ritmo: bonecos animados, filmes infantis, os interditos a menores de tantos e tantos anos, até te firmares nos “para maiores de 18 anos”. Recordando: Pinóquio, Branca de Neve e os Sete Anões, Cavaleiro Branco,até à familiarização com Alain Delon, Charles Bronson, Lando Buzanca, Louis de Funeés, Jacques Tati, Franco Franchi e Cício Engrassia, Bud Spencer e Trinitá,etc,etc. – e me perdoem qualquer incorrecção na escrita dos nomes desses grandes actores da sétima arte, é que vai muito longe o tempo em que nos conhecemos.

Até para alargar a saudade, podemos inscrever aqui o invencível Bruce Lee, o Alexandre Fu Cheng, o Darmendra, o Amitab Bacham, Feroz Khan, Saturgansinha, a Hema Malim, o Sashi Kapoor... Mas, na verdade, o cinema, aqui em Moçambique, teve fases ou processos estruturantes, que vale a pena rever. No tempo colonial, pelo menos a parte que me foi dado viver, havia o “programa duplo”, ou seja, uma sessão pela manhã, após a missa, pelas dez horas, e a outra, à tarde, entre catorze ou quinze horas, valendo o mesmo bilhete de entrada, entermeado por uma “senha de saída/entrada”. Numa e noutra sessão havia que chegar cedo, pois começavam todas com os bonecos animados. E mesmo nos filmes em que nos era permitido ir com os nossos pais. A revolução chegou.

Era preciso quebrar com as ideologias dominadoras dos nossos valores culturais. Fim dos bonecos animados. Em seu lugar veio o saudoso KUXA KANEMA. Quase ninguém se dava ao luxo de entrar tarde ao cinema, pois o KK não tinha tempo a perder. Era, sobretudo, Samora Machel percorrendo o país, com infindáveis comícios, ou com a memorável Ofensiva Política e Organizacional. Era a revolução em efervescência.

A seguir, vinha o filme de cartaz. Nada mais que servisse os interesses coloniais. Sucediam-se os ciclos de cinemas: africano, de que me recordo o Ceddo e o Feitiço; o soviético, com Era Uma Vez Uma Ponte...; o búlgaro, com Acusem da minha morte à Klava...; o cubano: Caminho para Maluala, etc.etc. O que parecia ser o destino traçado do nosso cinema, até,e sobretudo, com o lançamento da nossa primeira longa-metragem: “O Tempo Dos Leopardos”, a que se seguiu “Os Ventos Sopram Do Norte”, veio a derrocada. À toda extensão territorial, as casas vocacionadas ao cinema foram sendo vendidas, entregues ou cedidas aos vocacionados à palavra do Senhor. Em Quelimane, quase de um sopro, deixaram de existir o Cine-Águia, o Cine-Estúdio e o Cine-Chuabo, cada um deles carregado com um manancial de história.

Hoje, de cinema sei o que as Tvs vão dando ou dizendo. Convenhamos. Quem sabe ou gosta de cinema, sabe que estamos perante duas coisas ou realidades diferentes, naturalmente. Sem ser por acaso, o cinema é SÉTIMA ARTE. E a televisão?!

Tavares Braz

RECORDANDO O DIA EM QUE CHOREI

Chorei. É verdade. Não foi aquele pranto inconsolável das viúvas, nem aquele prantear infindo das carpideiras. Tão pouco, tal como a maioria das pessoas, chorei nas sofridas noites em que a vitória pareceu estar sempre guardada para a pontinha final do jogo, nem sequer quando a qualificação para o mundial da Turquia foi conseguida ou, até, mesmo, quando voltamos a falhar a conquista de mais um afrobasquete realizado no nosso solo pátrio. Fiquei com os olhos marejados de lágrimas, duas das quais não contive e escorreram-me cara abaixo, para minha própria surpresa. Foi durante a cerimónia de abertura do Afrobasquete de Maputo/2013.

Em determinado momento, deu entrada no parquet do Pavilhão do Maxaquene um grupo de crianças, entre meninas e meninos, de não mais de doze, treze anos de idade, cada uma delas driblando uma bola de basquetebol. Não sei se por escolha deliberada, eram todas franzinas, o que as fazia parecerem umas gazelinhas, rigorosamente bem equipadas. Seguindo à risca um circuito já previamente aprendido, as crianças iam driblando cada uma a sua bola – pode anotar, cada criança uma bola- de olhos postos no horizonte, e nunca preocupados com a bola, como que olhando para uma hipotética tabela. Exibindo o maior controle de bola, se agacharam, se sentaram, enfim, fizeram um sem-fim de malabarismos mas sempre de bola controlada.

Nenhuma criança teve necessidade de abandonar a fileira para ir recuperar a bola perdida. Tudo certinho. Foi aí que não me contive: chorei. Chorei ao recordar-me que, na quinta e sexta classes, nos primeiros anos da independência nacional, que foi quando tive as primeiras licções de basquetebol, na aula de educação física, o professor trazia uma ou duas bolas, na melhor das hipóteses. Com aquele escasso material, cumprindo, sei hoje, o seu programa de ensino, pretendia que aprendessemos a driblar a bola- na sua fantasia, com o acerto dos meninos que hoje me fazem chorar- sem olhá-la, nem perdê-la.

Está claro que, só os “dotados” conseguiam, ao fim de um certo número de aulas, driblar mais ao menos bem, o equivalente aos olhos postos na bola, mas sem perdê-la. Por isso, a aflição que se levava para a avaliação de matemática, por exemplo, se assemelhava àquela que muitos levavam para a avaliação de educação física. E não era para menos: sentado, finalmente, a um canto, o professor ia gritando: drible com a mão direita, drible com a mão esquerda. Estas dificuldades iniciais na aprendizagem do basquetebol, que tem no drible uma das suas potenciais armas, vi-as reflectidas em aulas de educação física até mesmo na Faculdade de Educação da UEM, que formava professores, ali no Pavilhão da Académica.

Detentores da nona classe, num ciclo atravessado por aulas de educação física, havia colegas que, entretanto, pegavam na bola de basquetebol, por extensão a de andebol e a de voleibol, como se tivesse picos. Drible?!...O mesmo que entregar uma bola de futebol a um leigo e pedi-lo para dar toques. Lançamento em suspensão?!...Um primitivo em desajeitado arremesso de pedra ou fosse lá o que fosse o seu instrumento de caça. Chorei, por todas estas recordações e, pela realidade actual de muitas províncias, em que, à medida que nos distanciamos da respectiva capital- qual da capital do país, em tudo o resto- as condições de trabalho e de aprendizagem em todas modalidades, que não seja o futebol, são deploráveis. Para encurtar argumentos e espaço é só notar que,para os jogos escolares, nos distritos, os alunos seleccionáveis são-no apenas no futebol, atletismo, salto de corda e todo o leque de jogos tradicionais que os mentores decidem introduzir, a cada festival.

Quanto às capitais provinciais, matéria para uma outra prosa, com todas as condições colocadas ao dispôr dos professores de educação física e treinadores dos clubes, (não) se trabalha a correr para a conquista de títulos, não se olhando a meios, como é a criminosa falsificação de idades. Portanto, chorei ao constatar que, neste mesmo país, é possível trabalhar-se, e bem, ao nível da iniciação. Nenhuma daquelas crianças, querendo progredir na carreira, necessitará de falsificar a idade, porque isso é prática de atletas medíocres, orientados por não menos medíocres e promíscuos treinadores.